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Docência abre portas para profissionais de mercado


Não foi a desejada estabilidade do cargo público, tampouco os 15 anos de experiência profissional que impediram a advogada Monica de Souza, aos 43 anos, substituir a habitual rotina do escritório de advocacia pelo sonho de se tornar professora universitária. Uma mescla entre desilusão com a profissão e desejo de mudar a levou para a academia. O trajeto exigiu mudanças e uma adaptação em seu plano de carreira, com a definição de novas metas profissionais, a re-avaliação de habilidades e competências, bem como a descrição detalhada de estratégias de ação.

"Aos poucos fui me desencantando com a carreira de advogada. Descobri, no entanto, que todas as profissões passam necessariamente pela educação e que seria mais útil educando", justifica Monica. A identificação do novo objetivo profissional foi sucedida pelo ingresso no Mestrado em Psicologia Cognitiva da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). "Caminho obrigatório para todo profissional que vislumbre ser professor", resume ela. A defesa da tese está prevista para abril de 2010. A partir daí a advogada pretende iniciar suas atividades em sala de aula.

Mesmo sem a tão cobrada experiência acadêmica, Monica acredita que a bagagem adquirida com a prática profissional colaborará para seu ingresso na nova profissão. "Com o título de mestre será possível o ingresso em uma universidade privada, que propiciará experiência didática e dinheiro para a viabilização do doutorado previsto para o final deste ano", planeja ela, que já comemora a existência de propostas de trabalhos em instituições privadas de Recife.

Assim como Mônica, muitos profissionais pensam em trilhar o caminho da docência no Ensino Superior e mesclar as duas carreiras. Para o setor público esse pode ser um desafio praticamente inviável, em função do tempo e dedicação necessários (veja no quadro abaixo). Por isso mesmo, o setor privado de Ensino Superior torna-se uma alternativa para os profissionais que pretendam usar suas habilidades corporativas em sala de aula. A experiência no mercado de trabalho em alguns processos seletivos que escolhem os professores é tão ou até mais importante do que a vivência acadêmica.

"Há determinadas áreas e disciplinas em que o conhecimento prático é fundamental. Na ausência de candidatos que unam experiência profissional e acadêmica, opta-se pelo especialista", explica Joyce Ajuz, diretora do Centro de Desenvolvimento de Pessoas da ESPM-RJ (Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro). Segundo ela, a preferência é freqüente em cursos mais práticos, tais como Comunicação e Design.

A preocupação com a falta de domínio na didática e na produção do conhecimento, mais latente nas instituições públicas, geralmente é minimizada a partir da capacitação dos profissionais contratados. Na ESPM, por exemplo, todos os candidatos selecionados passam obrigatoriamente pela Academia de Professores. "O programa reúne três cursos. Um voltado à apresentação da filosofia da escola, outro para o ensino da didática e, por fim, um que contempla as tecnologias como apoio de ensino", cita Joyce.

Além dos programas de capacitação personalizados às necessidades de seus professores, a PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) também oferece incentivos para que seus profissionais participem de programas de pós-graduação. "A ideia é buscar suprir as carências dos professores dentro de sala de aula e garantir a excelência no processo de ensino/aprendizagem da instituição", relata Solange Medina Ketzer, pró-reitora de graduação da universidade.

É muito comum encontrar nas salas de aulas profissionais que conseguem se dividir e ter uma jornada dupla, mas Joyce faz um alerta sobre a maratona envolvida nesse processo. "A academia não pode ser vista como um tapa buraco", enfatiza ela. "Até porque, uma aula não se restringe à experiência profissional. A vivência no mercado de trabalho é apenas um complemento", acrescenta a diretora da ESPM-RJ. Para Joyce, a carreira dupla exige planejamento ainda mais minucioso. Para que os dois caminhos possam ser percorridos paralelamente e com qualidade, na opinião dela, é preciso abrir mão de certas regalias. "E o final de semana é o primeiro a se perder", alerta a diretora.

Processo seletivo

Enquanto o ingresso em universidades públicas se restringe aos concursos públicos, os processos seletivos nas instituições privadas são mais flexíveis. Mas mesmo diante dessas diferenças, as etapas da seleção, em geral, são similares. As triagens passam por provas escritas, práticas e avaliação de títulos. A maior peneira é feita por meio das provas escritas.

Para a participação das provas práticas, em geral, os candidatos são obrigados a preparar uma aula e apresentá-la a uma comissão julgadora. "O teste avalia o domínio do conteúdo, a exposição das idéias, a didática, a empatia, a motivação e a flexibilidade dos profissionais para responder perguntas", descreve Joyce. Segundo ela, o tom de voz, a expressão corporal e a comunicação verbal podem fazer grande diferença na apresentação do profissional. "Nada de dar a aula experimental olhando para a parede, tampouco sentando na cadeira. Procure estabelecer uma sintonia com os avaliadores", orienta Joyce.

A pró-reitora de graduação da PUCRS enfatiza ainda a necessidade de se estabelecer um planejamento. "A aula precisa ter começo, meio e fim. De nada adianta querer passar todo o seu conhecimento em apenas uma hora. Você pode não passar nada ao querer falar tudo", diz Solange, que sugere ainda o uso de matérias de apoio para facilitar a exposição.

De acordo com Solange, os processos seletivos são definidos nas avaliações de títulos. Ela revela que são avaliados os cursos, as titulações, as experiências profissionais e acadêmicas e o envolvimento com a produção científica. Nesse quesito, a pró-reitora da PUCRS acrescenta que qualquer atividade, formação ou até mesmo aquela monitoria realizada na graduação pode fazer a diferença no processo de seleção.

 Como funciona no setor público
 Tanto nas instituições privadas como nas públicas - federais, estaduais e municipais - os chamados especialistas são contemplados no cargo de professor auxiliar. "O primeiro nível de uma escala que pode chegar até cinco níveis", aponta Edgar Gaston Jacobs Flores Filho, consultor na área de direito educacional e professor da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto). "As diferenças entre os degraus se limitam à titulação, à carga horária de trabalho e à remuneração", acrescenta ele.

Embora as oportunidades para profissionais sem nível de mestrado e doutorado no setor público também sejam reais, Ricardo Miranda, diretor de Recursos Humanos da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) aponta a baixa oferta de vagas para o cargo. "Sem pós-graduação stricto senso, as chances de ingresso no sistema federal, municipal e estadual diminuem consideravelmente", relata ele, que também é reitor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).

Portanto, para aqueles que pretendem progredir na carreira docente, dedicando-se integralmente às salas de aulas, a busca por titulações será essencial. É o que garante Miranda. Segundo ele, a graduação é apenas o primeiro passo da longa jornada de estudos que passa por especializações, Mestrado, Doutorado, mas não termina com o Pós-Doutorado. "Quanto maior o grau de escolaridade, maiores escalas poderão ser alcançadas na pirâmide hierárquica da carreira acadêmica", garante Flores Filho.

Nas universidades federais, por exemplo, as oportunidades se restringem a cinco classes: auxiliar, assistente, adjunto, associado e titular. Cada uma delas subdivididas em quatro níveis. Com algumas diferenciações, as carreiras nas universidades estaduais e municipais também mantêm cinco classes (auxiliar, assistente, adjunto, titular e pleno) com dois níveis cada. É o que explica Antonio Joaquim Bastos da Silva, vice-presidente da Abruem (Associação Brasileira de Reitores das Universidades Estaduais e Municipais) e reitor da Uesc (Universidade Estadual de Santa Cruz). "As regras, no entanto, são adaptáveis às legislações estaduais, bem como às particularidades de cada instituição", destaca ele.

Enquanto as exigências para o cargo de professor auxiliar se restringem à graduação completa e, em alguns casos, ao título de especialistas, às vagas de assistente são direcionadas a profissionais que tenham concluído o mestrado. Já as oportunidades para os cargos de adjunto, associado, pleno e titular exigem, no mínimo, o título de doutor. Miranda faz referência a um reaquecimento das oportunidades no sistema federal de ensino com o Reuni (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais).

A progressão na carreira acadêmica não se restringe apenas à titulação. "Embora os avanços entre as classes sejam baseados essencialmente no grau de escolaridade do professor, as evoluções nos níveis são definidas por critérios de tempo e merecimento", explica o consultor de direito educacional. "Há uma exceção no caso da progressão ao cargo de titular nas instituições federais que exige a aprovação em um processo seletivo próprio", acrescenta Flores Filho. O mesmo procedimento, segundo o vice-presidente da Abruem, é adotado pelas instituições estaduais e municipais para a ocupação das vagas disponíveis para os cargos titular e pleno.

O tempo da progressão também varia de acordo com a universidade. De um lado, as federais que determinam o limite de dois anos para os avanços nas escalas horizontais. Do outro, as estaduais que determinam um estágio probatório de, no mínimo, três anos.

Para Silva o segredo do sucesso na carreira está na vivência acadêmica. "Procure não se restringir apenas à sua função. Além de se envolver com as atividades da graduação, se engaje na pós-graduação com a orientação de alunos de mestrado ou doutorado e com a participação em grupos de pesquisas. Ocupar cargos administrativos também pode ser uma forma de manter destaque e crescer de maneira mais rápida e consistente", orienta o vice-presidente da Abruem.

 


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